Uma tarde de sábado e um show de Lewis Hamilton em Interlagos

Em uma das melhores atuações da carreira, heptacampeão vai de 20º a quinto em 24 voltas. Vitória na corrida classificatória e pole no GP de São Paulo ficam com o finlandês Valtteri Bottas

Foto: Peter Fox/Getty Images

Nada indicava que seria um bom sábado para Lewis Hamilton no GP de São Paulo, no Autódromo José Carlos Pace, em Interlagos. Nada mesmo. Na realidade, o dia começou ainda na noite de sexta-feira, quando a investigação pela irregularidade em sua asa traseira foi anunciada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) às 18h28 (de Brasília). Exatas 20h49 depois, depois de duas reuniões com a Mercedes, uma investigação – e multa – a Max Verstappen, um treino livre e muita polêmica, o resultado foi anunciado: primeiro na classificação, o heptacampeão foi desclassificado e largaria em último na corrida classificatória, de apenas 24 voltas, pouco mais de duas horas depois. Para piorar, independente do resultado de sábado, ele perderia mais cinco posições no domingo pela troca do motor a combustão (ICE). Parecia que o dia de Hamilton estava encerrado. Pois é. Parecia.

Lewis Hamilton teve um desempenho absurdo na corrida classificatória deste sábado em Interlagos — Foto: Clive Mason/F1 via Getty Images

A primeira corrida classificatória da história de Interlagos também foi o palco de uma das maiores performances de um piloto de Fórmula 1 no autódromo paulista. O que Lewis Hamilton fez em apenas 24 voltas de corrida foi absolutamente absurdo, digno de um heptacampeão mundial. Foram nada menos que 15 posições ganhas, quase uma por volta. Tudo isso sem margem de erro, sem tempo para negociações mais demoradas. Era acelerar, reduzir a vantagem para menos de um segundo, abrir (ou não) o DRS – como nas primeiras voltas – e colocar de lado na reta dos boxes, para delírio dos torcedores que lotaram as arquibancadas do autódromo. A última ultrapassagem, em especial, foi lindíssima. Na abertura da última volta, Hamilton colocou de lado, mas parecia distante. Lando Norris, com a McLaren, abriu a guarda e deixou o lado interno livre. O piloto da Mercedes freou pra lá do Deus me livre, segurou o carro e completou a manobra no S do Senna. Uma verdadeira obra de arte.

Talvez tenha sido a quinta posição mais festejada nestes 39 anos de corridas da F1 em Interlagos. Na chegada ao parque fechado após a prova, o vencedor Valtteri Bottas comemorou, o segundo colocado Max Verstappen saiu do carro… e a torcida se manteve impassível. Quando Hamilton parou o W12 e saiu do cockpit, as arquibancadas vieram abaixo, em um misto de aplausos, gritos e festa. Um justo reconhecimento a um desempenho totalmente fora da curva. É verdade que Mercedes e RBR são os dois melhores carros da temporada 2021. Mas também é verdade que os carros do regulamento atual tornam a vida de quem está atrás muito difícil, até mesmo pela dificuldade de manter os pneus em bom estado e seguir o carro da frente por causa da turbulência. Não dá, sob nenhum ângulo, para relativizar o que Hamilton fez neste sábado em Interlagos. Apenas pilotos fora da curva conseguiriam um desempenho tão brilhante quanto o do heptacampeão na corrida classificatória. Inclusive recomendo a quem esteve nas arquibancadas do Autódromo José Carlos Pace guardar o ingresso com muito carinho. É um daqueles dias que lembraremos com saudades daqui a alguns anos.

Lewis Hamilton faz a manobra da corrida classificatória sobre Lando Norris no S do Senna na última volta — Foto: Mercedes-AMG

O resultado colocou Hamilton na décima posição do grid deste domingo. A julgar pelo desempenho do inglês na corrida classificatória, um pódio é bem possível. A diferença é que agora as estratégias terão um papel essencial para decidir as primeiras posições do GP de São Paulo. A vantagem, entretanto, é que o inglês e a Mercedes poderão apostar em uma estratégia alternativa, já que em eventos com a corrida classificatória, a escolha de pneus para a largada é livre para todos os pilotos do grid. Hamilton, então, terá basicamente duas boas opções: largar de médios e partir para cima dos rivais, assim como fez neste sábado, ou começar com os duros, tentar alongar a primeira parada e colocar os médios apenas quando a carga de combustível estiver mais baixa e o carro, mais leve

É uma corrida crucial para as esperanças do octacampeonato de Lewis Hamilton. O inglês precisa de um bom resultado, que, ao menos, minimize os danos de uma possível vitória de Max Verstappen, para chegar com chances plausíveis nas três últimas corridas do ano: Catar, Arábia Saudita e Abu Dhabi. Provas que, aliás, são grandes incógnitas: a F1 ainda não correu em Losail, o circuito de rua de Jidá sequer está pronto e a Yas Marina realizou alterações em uma série de curvas para tentar melhorar as ultrapassagens. O ideal para o heptacampeão da Mercedes é chegar à fase final do campeonato com a menor desvantagem possível em relação ao holandês da RBR. Interlagos será decisivo para isto.

Lewis Hamilton cumprimenta o companheiro Valtteri Bottas, pole position do GP de São Paulo — Foto: Lars Baron/Getty Images

Bottas supera Verstappen no sábado

Valtteri Bottas comemora a primeira posição na corrida classificatória deste sábado em Interlagos — Foto: Lars Baron/Getty Images

Lá na frente, uma importante vitória de Valtteri Bottas, que lhe garantiu a terceira pole position nas últimas quatro corridas. Segundo no grid, o piloto da Mercedes apostou nos pneus macios para ter mais aderência que Max Verstappen, que estava com os médios, nos primeiros metros. Funcionou: o finlandês pulou muito bem na largada e assumiu a liderança ainda na primeira perna do S do Senna. O holandês da RBR, aliás, perdeu mais um tempo precioso ao ser ultrapassado na Curva Chico Landi pelo espanhol Carlos Sainz, da Ferrari, que também estava equipado com os macios. Ele recuperou a posição na terceira volta, partiu em busca de Bottas, mas nunca esteve em condições de tentar a ultrapassagem, mesmo com a diferença várias vezes dentro da zona de uso do DRS.

Não foi também o resultado ideal para a RBR, que ainda teve o mexicano Sergio Pérez atrás de Sainz na classificação, apenas em quarto. Ou seja, menos um ponto no Mundial de Construtores – apenas os três primeiros marcam na corrida classificatória. Com isso, a vantagem da Mercedes subiu para dois pontos na classificação. Pode não parecer nada, é verdade, mas em um campeonato tão acirrado, disputado ponto a ponto, qualquer revés, por menor que seja, pode ser crucial no fim da temporada 2021. E se o pódio no GP do México serviu como motivação para Pérez, essa vitória/pole na sprint qualifying em Interlagos pode ser a faísca para iluminar o caminho de Bottas nos últimos quatro GPs.

Max Verstappen terminou a corrida classificatória em Interlagos na segunda posição neste sábado — Foto: Mark Thompson/Getty Images

Fonte: ge.globo.com

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