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Inflação não poupa nem pé e carcaça de frango e castiga renda mais baixa

Nem o pé de frango escapou da inflação. Ao longo da pandemia, a alta dos preços alcançou até cortes de carnes outrora desprezados por muitos brasileiros.

É o caso de Adriana Vieira, 35, que vive no Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo. Ela diz que, antes da pandemia, encontrava o quilo do pescoço e do pé de frango na faixa de R$ 2 a R$ 3, mas, ao longo da crise, já chegou a pagar mais do que o dobro.

Adriana mora com três filhos e um irmão adulto que teve paralisia infantil. A renda da família vem do BPC (Benefício de Prestação Continuada) do irmão e do dinheiro que ela consegue vez ou outra catando latinhas e papelão. Doações também são necessárias para o sustento diário.

“A gente compra o que é mais barato da carne de frango, além do ovo. O ovo também subiu muito, quase não dá mais para comprar uma cartela”, conta Adriana, que busca trabalho em áreas como a de limpeza, na qual tem experiência.

Em Perus, na zona noroeste de São Paulo, a educadora Jandira Ribeiro, 74, costuma procurar por carcaça e pé de frango, e também notou a diferença.

“Hoje comprei pé. Paguei R$ 11,90 no quilo, mas semanas atrás paguei cerca de R$ 9. Antes eu costumava pagar menos de R$ 5 no quilo”, relata a moradora. Em mercados das zonas sul e leste, o pé de frango estava saindo por R$ 8 o quilo.

Em dois açougues da zona norte do Rio de Janeiro, o quilo do pé de frango beirava R$ 9 e R$ 10 nos últimos dias. Há cerca de um ano, os valores estavam menores, na faixa de R$ 6.

Elizabete Almeida Leite, moradora de Nova Iguaçu (RJ), na Baixada Fluminense, lamenta os efeitos da crise.

“Essa coisa de pescoço de galinha, pé de galinha, carcaça, que era tudo barato, R$ 2… 50 centavos. Hoje em dia um quilo de pé de galinha está R$ 8”.

Desempregada e dependente do Auxílio Brasil, Elizabete diz que o benefício não é suficiente para alimentar a família.

“Tenho 54 anos e tenho vontade de trabalhar, porque a pior coisa é você ver sua filha pedindo biscoito e você não ter pra dar”.

A alta nos preços também contribuiu para a fome na família de Ionara Jesus, de São Paulo, que está desempregada e tem quatro filhas.

“A gente acha o quilo do pé de frango por R$ 12, por R$ 10, isso para mim é um absurdo. E já tem granja que, se a gente pesquisar bem, consegue achar o quilo da carcaça a uns R$ 8, R$ 10”, afirma.

Cortes como esses não aparecem de forma individual no índice oficial de inflação para o consumidor no país, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Um levantamento da consultoria Safras & Mercado, porém, dá uma dimensão da alta dos preços no atacado do estado de São Paulo. Esse recorte avalia os valores médios em vendas de frigoríficos para redes de supermercados ou distribuidoras.

Em 30 de dezembro, o preço do quilo de pé de frango era de R$ 2,90 no atacado paulista. Quase sete meses depois, o valor atingiu R$ 4,60 em 8 de julho, o equivalente a uma alta de 58,6% neste ano.

No mesmo intervalo, o quilo do pescoço de frango subiu 64,3%, de R$ 2,80 para R$ 4,60. Outros cortes considerados menos nobres também avançaram, como dorso (31,3%) e carcaça temperada de galinha (10,5%).

Segundo o levantamento, o pé de frango chegou a bater em R$ 5 ao longo de 2021, mas perdeu força na reta final do ano passado. Em 2022, passou a subir mais uma vez.

Para o economista Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado responsável pelo levantamento, a carestia reflete a demanda aquecida por carne de frango, tanto no mercado interno quanto no cenário externo, além do aumento nos custos de produção.

“A carne de frango, apesar de ter subido muito, continua tendo preços mais competitivos. Impossibilitado de comer carne bovina, o brasileiro vai para o frango. A gente vê alta de outros cortes, como peito, coxa e sobrecoxa”, aponta.

Cesta de produtos mais acessíveis sobe 13%

A pressão inflacionária ainda atingiu outros alimentos que costumam ter preços mais acessíveis e que, em momentos de aperto na renda, podem aparecer com maior frequência na mesa do brasileiro, mostra um levantamento do economista Matheus Peçanha, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

No acumulado de 12 meses até junho, uma cesta composta por sete desses itens acumulou alta de 13,2% para o consumidor, de acordo com dados do IPC-DI, índice calculado pelo FGV Ibre em capitais.

A maior elevação foi a do macarrão instantâneo: 19,35%. Mortadela (17,01%), ovos (16,95%), biscoitos (15,85%), salsicha ou salsichão (13,95%) e fígado bovino (1,64%) também subiram no período. A única baixa foi a do músculo bovino (-3,49%).

“A cesta mostra como a inflação de alimentos, com a pressão de custos, ficou bem disseminada. Até bens inferiores tiveram escalada de preços”, diz Peçanha.

Conforme o economista, a carestia da comida deve até desacelerar ao longo do segundo semestre, mas a tendência é de preços ainda em um patamar elevado.

“Não quer dizer que vão baixar. Alguns podem registrar alguma estagnação. Vimos cortes de impostos, trégua em commodities, e não há perspectiva de novos problemas climáticos afetando os preços até o final do ano. O prognóstico é de desaceleração”, indica.

Com a crise econômica, cenas de pessoas em busca de doações e até de restos de comida se espalharam pelo país durante a pandemia.

Uma das mais emblemáticas foi a de um caminhão de ossos e sobras de carne que passou a ser disputado na zona sul do Rio por um grupo com fome. O caso ganhou repercussão em 2021.

Outras metrópoles também registraram filas em busca de doações de restos de ossos de boi.

Atualmente, 33 milhões de pessoas passam fome no país, indicou o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado em junho. O contingente é similar ao registrado 30 anos atrás.

Relatório recente da consultoria Kantar também aponta impactos da inflação sobre o consumo no país.

Uma das conclusões é que comer fora de casa virou tarefa mais difícil com o aumento dos preços, e, assim, parte dos consumidores vem trocando refeições completas por alimentos menores e que subiram menos.

Natalie Vanz Bettoni/Ira Romão/Gabriela Carvalho/Leonardo Vieceli/Folhapress