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Seguro paramétrico inédito protege cacau no sul da Bahia

Uma operação inédita, concluída na semana passada, reuniu iniciativa privada, poder público e produtores na modulação de uma ferramenta customizada para mitigar os impactos das alterações do clima na produção de cacau no sul da Bahia.

Foi emitida a primeira apólice de seguro rural paramétrico do país, que usará o tratamento de dados e as informações climáticas de estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) como indicadores de risco para o contrato entre seguradora e agricultores. O prêmio contou com a subvenção federal de 20% implementada no início do ano e também inédita.

O seguro vai cobrir a produção de cacau em três fazendas de Ilhéus (BA), com 140 hectares no total, contra o excesso ou falta de chuvas entre 1º de agosto e 30 de setembro. A data, o evento climático listado e a intensidade foram definidos em comum acordo – o período escolhido é o mais sensível para o desenvolvimento, produtividade e qualidade do fruto para os cacauicultores.

O objetivo é evitar impactos como os ocorridos na região da costa do cacau entre 2014 e 2016, quando houve uma seca que acabou com cerca de 50 mil hectares produtivos. “É uma alternativa para oferecer, minimamente, uma garantia caso a chuva não corresponda em um período chave para a floração e desenvolvimento do cacau, um complemento de renda para o produtor e um reconhecimento do valor que tem esse meio de produção sustentável”, afirmou Ricardo Gomes, gerente do Instituto Arapyaú, que atua há 13 anos na região e participou da análise dos parâmetros definidos.

Assim como o volume pluviométrico, outros índices podem ser utilizados, como intensidade do vento, temperatura, o número de dias de sol, ocorrência de geada, granizo, inundação e questões ainda mais específicas para a região da fazenda.

Júlia Guerra, diretora comercial de agronegócios da Wiz Corporate Partners, corretora parceira no projeto, realça que o seguro paramétrico é desenhado “sob medida” para a realidade de cada produtor, o que o torna mais eficiente e, potencialmente, até mais barato – o valor da apólice não foi revelado. A dificuldade para popularizar o modelo no Brasil sempre foi a falta de dados eficazes e confiáveis, lembra ela. Mas o gargalo pode ser superado a partir de agora, com a participação do Inmet no processo.

Segundo Miguel Ivan Lacerda, diretor do Inmet, o instituto assegura independência e assertividade ao critério de apuração, com amplo histórico de informações acessadas de forma gratuita. A emissão da apólice é um marco no projeto de financeirização dos dados do Sistema de Informações Meteorológicas (SIM Inmet), que envolve também a construção de um “derivativo climático” a ser negociado na B3.

Rodrigo Mortoni, vice-presidente da Newe Seguros, seguradora responsável pela operação, reforça que o maior volume de informações e a confiança nos dados do Inmet reduz os riscos, e que a definição de parâmetros numéricos tira a subjetividade do processo, já que as coberturas são acionadas por um “elemento objetivo”, sem necessidade de apuração ou quantificação de danos.

Outra peculiaridade é a dispensa de vistorias e inspeções presenciais em caso de sinistro. “Se chover menos, a cobertura vai ser acionada e a indenização vai ser paga diretamente na conta do produtor, de maneira célere. Isso tira o risco moral, o custo de inspeção, a ida a campo”, afirma.

Mais um diferencial da apólice é o lastro sustentável. A Dengo Chocolates (produtora de chocolate), a ZCO2/BlockC (provedora de soluções de descarbonização), o Instituto Arapyaú e produtores locais desenvolveram um contrato com contrapartida ambiental, pela preservação da Mata Atlântica garantida com o sistema de produção “cabruca”. A apólice conta com indicadores de sustentabilidade para financiar o pagamento do prêmio do seguro com crédito de carbono – uma espécie de respaldo que o seguro dá para que os cacauicultores permaneçam na atividade e a floresta não seja desmatada para outros usos.

Ainda pouco difundido no país, o seguro de índice movimenta US$ 100 bilhões por ano no mundo. “Hoje, 75% dos agricultores brasileiros não fazem seguro de colheita. Queremos tirar a imagem de que o seguro é mais um custo e tratá-lo como uma ferramenta real de mitigação do risco”, diz Júlia Guerra, da Wiz.

Rodrigo Motroni diz que a Newe Seguros está estruturando outras operações no ramo agropecuário, com produtores de cana, soja, milho e para pastagens. A meta para 2022 é atuar também no setor elétrico, onde o clima também é vital.

Fonte: Valor Econômico

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