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Fazer faxina pode ajudar a saúde mental, diz estudo; casa bagunçada aumenta o hormônio do estresse e gera ansiedade

Uma casa suja e bagunçada dificulta a vida. Não só pelo documento perdido ou a falta de um prato limpo, mas também porque afeta a saúde mental. Pesquisas e especialistas indicam que viver num lugar que parece ter recebido uma visita do Saci é fonte de estresse e ansiedade.

Não à toa, a rainha da organização, Marie Kondo, estreou no Netflix a segunda temporada de enorme sucesso do seu programa. As chamadas “personal organizers” vêm se proliferando, e o setor de limpeza foi um dos poucos a crescer na pandemia. Se antes era possível bater a porta e deixar tudo para depois, como as pessoas passaram a ficar mais em casa, se tornou mais difícil suportar o caos.

Estudo da Universidade da Califórnia publicado no Jornal de Personalidade e Psicologia Social com casais com filhos mostra que as mulheres que afirmam ter uma casa suja e bagunçada têm níveis aumentados de cortisol, o hormônio do estresse. Nos que não percebiam a desordem, grupo que inclui a maioria dos homens, os níveis do hormônio caíam ao longo do dia.

Outra pesquisa, da Universidade de New South Wales, na Austrália, que saiu na publicação científica Ambiente e Comportamento indica que cozinhas desorganizadas e com coisas para limpar levaram as pessoas a se descontrolarem com a comida — passaram a comer mais.

— Uma casa desorganizada desencadeia estresse porque há uma grande quantidade de informações e coisas a fazer. Uma pessoa que é muito caótica acaba sendo mais ansiosa. E mesmo que esse estresse seja sutil, com o tempo ele desencadeia alguns sintomas físicos e emocionais — explica a psicóloga Marilene Kehdi.

A produtora de eventos Adriana Serrano, 50 anos, precisou abrir mão da faxineira que ia semanalmente à sua casa durante a pandemia. Ao assumir o trabalho, descobriu nele uma forma de se tranquilizar.

— O visual, a coisa limpa e clean sempre me acalmou muito. Durante a pandemia, aumentei meu nível de organização e limpeza, comecei a me dedicar a limpar pequenos detalhes, coisas que a gente não faz no dia a dia. Isso me ajudou a passar por esse período e fez com que eu me sentisse melhor — conta a produtora.

Com o passar do tempo, ela entendeu que a bagunça e a sujeira prejudicavam sua saúde mental e adotou novas técnicas para lidar com as coisas por fazer.

— Já passei por períodos, quando estava atolada de trabalho, que não tinha tempo de arrumar e depois de 15 dias a casa virava um pandemônio. Ficava muito ansiosa, olhando pilhas de roupa para lavar, pia para encarar, até tomar coragem e dizer “ou arrumo ou não vou conseguir mais viver”. Aprendi com os anos: antes eu sofria com a bagunça, mas não entendia o que podia sanar isso, não agia. Como não gosto de lavar louça, esperava juntar bastante, mas ia dando um desespero quando a pia ficava cheia. Isso me estressava. Agora lavo com mais frequência. Hoje tenho consciência de que fico mais feliz e relaxada — completa.

Não seja acumulador

Mas, diferentemente do que muita gente pensa, bagunça e sujeira não são, necessariamente, coisas que andam juntas. Segundo os especialistas, a bagunça é um excesso de coisas que se acumulam e criam espaços caóticos, ainda que limpos. Por isso, o primeiro passo para acabar com ela é diminuir as tralhas.

— Tudo o que a gente tem, a gente precisa administrar, sejam as coisas, as atividades ou os relacionamentos. A pessoa cuida, por exemplo, da carreira e da família, mas não dá conta da casa — diz a ex-bagunceira e fundadora da consultoria Onde Eu Deixei, Carol Ferraz.

Ela explica: imagine-se no carro. Quando o entregador oferece um anúncio de imóvel, você pega? Pronto. É mais uma coisa para administrar (jogar no lixo, normal ou reciclado, enfiar na bolsa e se livrar depois ou esquecer no canto do carro indeterminadamente).

Ou então: adora pequenos quadros e bibelôs. Vai tirar o pó? Então reveja se vale a pena ter isso. Para Ferraz, as pessoas precisam ser “porteiras” e escolher com mais rigor o que entra na vida delas.

A própria Marie Kondo prega que as pessoas se livrem dos excessos, doando ou descartando o que não lhes “traz alegria”

— É um processo de elaboração, de encerrar ciclos. As coisas não devem servir para nos gerar culpa.

Exageros são alertas para transtornos

Muita gente não limpa ou arruma não por ser desleixada, mas por ser perfeccionista. São pessoas que pensam que se não for para deixar a casa brilhando, a sala igual à da revista ou as roupas dobradas com perfeição, melhor nem fazer. Só que, para manter a casa e a saúde mental, também é preciso avaliar se a régua não está muito alta.

Ferraz, que é professora do método de organização da Marie Kondo para alunos de diversas partes do mundo, garante que o brasileiro, em geral, é exigente com limpeza em um grau que não se vê em outros países. Na nossa rotina, novas coisas foram somadas e nenhuma foi subtraída.

— Sob aspecto histórico, nos anos 1950, 60, quem era responsável pela casa? A mulher antes se dedicava a isso o tempo todo, mas ela entrou no mercado de trabalho e passou a ter jornada tripla. Só que a organização não acompanhou esse movimento. Pensam na casa perfeita, como se não tivesse vida, uma coisa que a mulher nos dias de hoje não vai conseguir manter.

Os excessos são inimigos do bem-estar. Tanto a limpeza exagerada pode ser um sintoma do Transtorno Compulsivo Obsessivo, quanto a coleção de coisas pode ser alerta para o Transtorno Acumulativo.

Programa Estado Solidário