No dia a dia, essa realidade se traduz em tensões reais

Alugar um imóvel em Salvador não está apenas mais caro, está beirando o insustentável para muitos moradores da cidade. Nos últimos meses do ano, a escalada nos preços tornou o mercado de locação uma das maiores fontes de frustração no orçamento familiar. Dados do Índice FipeZAP de Locação Residencial de novembro de 2025 mostram que os preços de aluguel continuam subindo no Brasil, mas em Salvador o aperto é ainda mais intenso e sentido diretamente no bolso dos inquilinos.
Em novembro, os preços de locação em Salvador subiram 1,05% em relação a outubro, acima da média nacional de 0,59%. Essa alta mensal representa um fôlego a menos no orçamento de quem já luta para pagar pelo teto onde vive. O maior agravante é que, no acumulado do ano, os aluguéis em Salvador já aumentaram 11,20%, montante que supera com folga a inflação oficial do período. Nos últimos 12 meses, a alta foi de 14,13%, indicando que o encarecimento dos aluguéis não é um episódio isolado, mas uma tendência firme e contínua ao longo de 2025.
O preço médio por metro quadrado em Salvador chegou a R$ 50,97/m², um valor que coloca a capital baiana acima da média nacional e em pé de igualdade com mercados tradicionalmente valorizados. Entre as capitais brasileiras, apenas alguns centros urbanos seguem acima, como Belém com R$ 62,57/m² e São Paulo com R$ 62,25/m², enquanto outras, como Curitiba e Porto Alegre, apresentam valores menores.
No dia a dia, essa realidade se traduz em tensões reais. Moradores como Luciana Ferreira, 38 anos, vivem o dilema de tentar permanecer na mesma região que sempre moraram enquanto o aluguel sobe mês após mês. Ela paga hoje quase R$ 2.200 por um apartamento de um quarto onde vivia por R$ 2.000 dois anos atrás, e diz que a pressão por reajustes acima da capacidade de pagamento tem sido constante. A cada correção, dizem os moradores, o sonho de estabilidade se afasta um pouco mais.
A explicação desses números reflete um conjunto de fatores que pressionam o mercado: a demanda por moradia continua firme, a oferta de imóveis disponíveis em áreas centrais é limitada e as regiões com melhor infraestrutura, transporte e serviços atraem mais interessados do que oferta disponível. Isso transforma bairros antes considerados “acessíveis” em zonas de disputa por contratos de aluguel com valores cada vez menos compatíveis com a renda média da cidade.
O próprio índice de Salvador mostra que, embora a capital não seja a mais cara do Brasil, está entre aquelas onde os preços subiram com mais intensidade em 2025. Enquanto capitais como Campo Grande, Goiânia, Manaus, Brasília e Recife apresentaram quedas ou variações menores, Salvador segue um movimento claro de alta generalizada que atinge praticamente todas as regiões da cidade.
Um dos fatores para o sentimento de sufoco é que os valores por metro quadrado variam bastante conforme o bairro, refletindo diferenças de procura e de infraestrutura. Nos últimos relatórios divulgados e com base em amostras de anúncios que influenciam o
cálculo do índice, bairros como Barra e Ondina aparecem com valores de aluguel entre os mais altos da cidade, geralmente acima de R$ 70/m², enquanto áreas como Caminho das Árvores, Pituba e Rio Vermelho também figuram com preços superiores à média da capital, espremendo cada vez mais os limites de quem busca morar próximo de serviços e transporte.
Essa disparidade significa que, em bairros mais valorizados, um apartamento de tamanho padrão pode facilmente ultrapassar R$ 3.000 por mês, já considerando aluguel e outras despesas como condomínio. Para famílias com renda média ou trabalhadores que dependem de salários fixos, esse valor representa um desafio enorme. Não raro, pessoas relatam ter que optar por bairros mais distantes, embarcar em compartilhamentos de moradia ou mesmo submeter-se a apartamentos menores e menos confortáveis simplesmente para arranjar um teto.
Enquanto isso, capitais como São Luís, Belém e Teresina também registraram altas mensais mais acentuadas que a média nacional, mas o que torna o caso de Salvador dramático é a combinação de alta continuada, preço médio já elevado e crescimento acima da inflação, criando um cenário em que o aluguel pesa de forma brutal na renda familiar.
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