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Um balanço do cenário educacional na pandemia

Com os números de contágios ainda oscilando na pandemia, como fica o “novo” calendário escolar? Quais os obstáculos enfrentados por estudantes que não possuem recursos para o estudo híbrido? Qual o papel dos pais e escolas na retomada presencial parcial às instituições de ensino?

Diante de tantos questionamentos enfrentados pela sociedade, conversamos com a educadora Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM e ex Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação. Abaixo, entrevista com a especialista.

Este é momento ideal para a volta às aulas presenciais?

Quem deve definir o momento de voltar para as escolas são os profissionais da saúde. Não são os pais, professores e diretores. É necessária uma ação conjunta entre gestores da educação e da saúde, com uma escuta evidentemente das famílias dos estudantes e dos profissionais, garantindo condições para que os protocolos de higiene e segurança sejam seguidos e respeitados no estabelecimento.

Quando as pessoas dizem que os estudantes não são um grupo de risco, temos que lembrar que eles moram com pais, mães, avós, tias, padrinhos, madrinhas, e que muitos estarão nos grupos de riscos. A volta deve se organizada, o espaço deve ser sanitariamente tratado e a ciência e profissionais da saúde têm que ser ouvidos e devem dar a palavra final.

Faltando cerca de dois meses para o fim do ano letivo, a volta seria justificável?

A verdade é que as escolas nunca estiveram fechadas, nem as atividades suspensas durante esse isolamento. De uma maneira ou de outra, milhares de professores criaram formas muito novas inovadoras e transformadoras para manter o processo de aprendizagem com seus estudantes. Portanto, o ano de 2020 não pode ser cancelado.

De uma maneira ou de outra, ele aconteceu e aconteceram aprendizagens e transformações. A gente tem que tomar muito cuidado para não achar que a aprendizagem só acontece quando se está na escola. A aprendizagem acontece sempre, em muitos lugares e a escola tem que estar conectada com o mundo lá fora.

A pior coisa que pode acontecer agora é deixar as crianças e adolescentes sem nenhuma atividade, sem nenhum vínculo com o mundo escolar e com o mundo da aprendizagem. A diferença é que os profissionais da educação são comprometidos, e aprenderam na prática, inovando, mantendo contato e enviado atividades, para que essas crianças e jovens saibam que a escola não acabou. O edifício pode estar fechado, mas em breve ele reabre e, enquanto isso, o vínculo e o processo de aprendizagem continuam acontecendo de muitas maneiras.

Levando tudo isso em consideração, partindo do princípio que as atividades estão em andamento, a realização de algumas atividades presenciais para estreitar esse vínculo faz sentido, desde que se tenha o aval dos profissionais de saúde, respeitando os protocolos e preservando a saúde de toda comunidade educativa.

O Brasil está preparado para o modelo de ensino híbrido de forma efetiva?

O ensino híbrido tem possibilidade sim de funcionar no Brasil, tanto na rede pública quanto na privada. Esse modelo de ensino não representa exclusivamente o uso de tecnologias, mas sim atividades que serão parte presenciais e parte a distância. Então, se a escola conhece bem os seus estudantes, ela sabe quais as condições de cada um para organizar e planejar o ensino híbrido coerente com as necessidades deste grupo de alunos.

Em termos de precariedade do acesso à internet e da importância dessa ferramenta para educação, o que aprendemos na pandemia?

A melhor forma de enfrentar essa questão da tecnologia é enfrentar a desigualdade social e econômica do Brasil, que gera a forte desigualdade educacional. Nós necessitamos de políticas compensatórias para os grupos que foram historicamente prejudicados, como incluir acesso à internet como um direito, “na cesta básica”. Também é importante olhar para os professores, uma vez que nem todos têm em suas residências boas conexões de internet. É necessário sim pensar em uma política pública que garanta a todas as crianças e jovens brasileiros o acesso à internet gratuita, além de equipamentos, seja um smartphone, um laptop ou um tablet. Além disso, professoras e professores precisam de formação para poder preparar estas atividades e se sentirem seguros com elas.

Em termos de infraestrutura das escolas, uma volta às aulas em escolas públicas segura é possível?

Temos que repensar aquele formato antigo da escola. A hora agora é de fazer uma escola nova, com todos esses aprendizados que colhemos durante a pandemia. As turmas terão que ter menos alunos, os espaços da escola e do seu entorno, o bairro, deverão ser incorporados às atividades. Quando a gente começa a trabalhar com espaços e tempos mais flexíveis, a gente avança na concepção de educação, tira a escola das grades de horários e passa a pensar, por exemplo, que a pracinha pode ser o local para oficinas de botânica para 10 estudantes, enquanto outros 10 estão em sala de aula e outros 10 fazendo uma atividade na quadra.

E retorno seguro implica em um plano detalhado de medidas preventivas, articular grupo intersetorial (saúde, educação, assistência, cultura), ampla testagem da população, segurança alimentar, proteção social contra a violências e, principalmente, a preservação do direito à educação. Ou seja, não dá pra voltar sem planejamento e diálogo.

Escolas públicas e privadas deveriam seguir o mesmo calendário de volta às aulas?

Depende da infraestrutura e planejamento de cada escola, cada território. Escolas privadas costumam (com raras exceções) funcionar em prédios adaptados, classes cheias de alunos, falta de espaços coletivos ao ar livre. Tanto escolas públicas e privadas têm diferenças entre si. Logo, o calendário não deve ser o mesmo para um grupo grande de escolas. Temos de respeitar as escolas, sua forma de funcionar, sua história. Deveríamos respeitar mais o saber fazer de cada escola. Teremos muitas dificuldades, uma delas é que a cultura escolar, a forma de o nosso modo de trabalhar, com uma rotina muito engessada, com horários muito definidos e com turmas fechadas em si mesmas passou e não deve voltar a ser “normal”. Eu espero que, tenhamos uma concepção de escola alargada, onde todos os territórios sejam espaços de aprendizagem, que criemos laboratórios e oficinas, em diferentes espaços, seja no pátio, na cantina, nas quadras, nas bibliotecas, nas praças, ou seja, que todos os espaços da escola e no seu entorno da escola possam ser usados significativamente.

Os professores precisam de novas formações, para entenderem novas formas de avaliação, porque não será possível avaliar crianças da mesma maneira, com a mesma prova e, a escola vai ter que repensar seu papel no mundo, porque é um corte abrupto mas necessário, daquela escola muito clássica, muito fechada e muito gradeada por currículos e notas de zero a dez. Quando os estudantes voltarem, é acolhimento será a palavra chave, é preciso uma a escuta do que cada um passou, de como cada um viveu essa quarentena, porque esta volta não é o retorno de um período de greve ou de férias, é a volta de uma pandemia, onde mais de 140 mil brasileiros morreram e muitos dos nossos estudantes e profissionais da educação terão sido afetados pelo luto, pela solidão, por violências diversas, pela fome.

Isso é muito mais importante do que qualquer conteúdo ou calendário: acolher, escutar, saber a situação de cada um e aí pensar em atividades que garantam o aprendizado. Nós vamos ter de selecionar o que é essencial e eu não acho que seja obrigatório terminar o ano letivo agora. Para mim, uma solução criativa seria reunir 2020 e 2021, que seriam um ano, um ano e meio, que valeria por dois, não reprovar ninguém e analisar as condições de cada estudante, com trilhas personalizadas para cada um.

Qual o papel dos pais nessa questão?

Os responsáveis pelas crianças merecem tanto acolhimento quanto os próprios estudantes por parte da escola. Muitas dessas pessoas perderam o emprego durante a pandemia, temos muitas famílias nas quais os adultos não concluíram os estudos, portanto têm dificuldades de auxiliar as crianças nas atividades escolares. Como comentei acima, se a escola conhece bem os seus estudantes – e isso inclui a sua família, o contexto em que está inserido -, ela sabe quais as condições de cada um para propor atividades coerentes com as condições necessárias de cada núcleo familiar.

Não são os pais, professores e diretores. É necessária uma ação conjunta entre gestores da escola e da saúde, com uma escuta evidentemente das famílias dos estudantes e dos profissionais, mas, antes de tudo, nós temos que escutar o que a ciência tem a nos dizer.

Por Verônica Bittencourt Scisinio

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