Trump se torna o 1º presidente dos EUA a pisar em solo norte-coreano

Críticos classificaram o encontro com Kim como uma manobra publicitária.

Seul – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se tornou o primeiro presidente norte-americano a por os pés na Coreia do Norte no domingo ao encontrar o líder do país, Kim Jong Un, na Zona Desmilitarizada (DMZ) entre as duas Coreias e concordou em retomar as negociações nucleares antes paralisadas.
A reunião, iniciada por um tweet inesperado de Trump que Kim disse tê-lo pego de surpresa, mais uma vez mostrou o bom relacionamento que há entre os dois. Mas eles não estão mais próximos de diminuir a distância entre suas posições desde que realizaram uma cúpula em fevereiro no Vietnã.
Os dois apertaram as mãos calorosamente e expressaram suas esperanças de paz quando nesta que é a terceira vez que se encontram em pouco mais de um ano na antiga fronteira da Guerra Fria que durante décadas simbolizou a hostilidade entre os países, tecnicamente ainda em guerra.
Trump, escoltado por Kim, atravessou brevemente uma linha de demarcação militar para o lado norte da Área de Segurança Conjunta (JSA), patrulhada por soldados das duas Coreias.
Momentos depois, eles voltaram para o lado sul e se uniram ao presidente da Coreia do Sul, Moon Moon Jae-in, para uma breve conversa, marcando uma reunião sem precedentes entre os três países.
Depois, Trump e Kim realizaram uma reunião a portas fechadas por quase uma hora.
“Acabamos de ter uma reunião muito boa”, disse Trump após as negociações. “Vamos ver o que pode acontecer.”
Ele disse que ambos os lados montariam equipes para retomar as negociações paralisadas com o objetivo de fazer a Coreia do Norte desistir de suas armas nucleares, acrescentando que “rapidez não interessa (agora)”.
O Papa Francisco, fazendo seu discurso semanal na Praça de São Pedro, elogiou a reunião. “Saúdo os protagonistas, com a oração de que um gesto tão significativo seja mais um passo no caminho para a paz, não só naquela península, mas para o bem do mundo inteiro”, disse ele.
Trump e Kim se encontraram pela primeira vez em Cingapura em junho do ano passado e concordaram em melhorar as relações e trabalhar para a desnuclearização da península coreana.
Mas a segunda cúpula em Hanói foi interrompida depois que os dois lados não conseguiram chegar a um acordo entre uma exigência dos EUA para que a Coreia do Norte desistisse de suas armas nucleares e uma demanda norte-coreana por alívio nas sanções.
CRÍTICASCandidatos que disputam a nomeação do Partido Democrata para a disputa presidencial de 2020 nos Estados Unidos criticaram Trump, dizendo que o encontro com Kim era pobre em conteúdo e exaltava um ditador inescrupuloso.
Críticos classificaram o encontro como uma manobra publicitária e disseram que Trump desperdiçou um importante gesto simbólico quando há poucos indícios de que a Coreia do Norte tenha tomado passos em direção à desnuclearização.
Diversos democratas em campanha para substituir Trump na Casa Branca nas eleições de 2020 disseram que não havia nada de errado em conversar com adversários dos Estados Unidos, incluindo Kim. Essa rodada de conversas, no entanto, deveria seguir uma série de preparações intensas e avanços significativos da Coreia do Norte na questão nuclear, disseram.
“Nosso presidente não deveria desperdiçar a influência americana em uma oportunidade para fotos e troca de cartas de amor com um ditador inescrupuloso”, disse a senadora norte-americana Elizabeth Warren em uma publicação no Twitter.
Seus colegas de Senado Bernie Sanders e Kamalla Harris também chamaram o evento de “oportunidade para fotos”.
Sanders disse que não culpava Trump pelo encontro com Kim, mas perguntou: “O que acontecerá amanhã ou depois? Ele enfraqueceu o Departamento de Estado. Se iremos promover a paz neste mundo, precisamos de um Departamento de Estado forte, precisaremos avançar diplomaticamente, e não só criar oportunidades para fotos”.
Trump elevou o perfil do ditador ao se encontrar com Kim em três oportunidades diferentes, sem nenhum resultado concreto para apresentar, de acordo com os democratas Julian Castro, ex-secretário de habitação na presidência de Barack Obama, e o deputado Beto O’Rourke.
A Coreia do Norte não cumpriu os compromissos firmados em reuniões anteriores com Trump, e preparações intensas deveriam ter sido feitas antes do encontro entre os líderes para garantir que o progresso fosse feito, disseram os democratas.
“Ele está fazendo o processo ao contrário”, disse Castro.
Um porta-voz para o ex-vice-presidente Joe Biden disse que Trump “mimando” ditadores às custas da Segurança nacional dos Estados Unidos.
A Coreia do Norte fez lançamentos de mísseis no mar ainda no mês passado, notou a Senadora norte-americana Amy Klobuchar, mostrando a necessidade dos Estados Unidos a entrarem em conversas como essas com uma missão e objetivos claros.
“Não é fácil assim, como levar um prato quente de presente para o ditador vizinho”, disse.
Os candidatos falaram nos programas “State of the Union”, da CNN, “This Week” da rede ABC, e no “Face the Nation”, da CBS.
Foto: ReutersPresidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprimenta o líder norte-coreano Kim Jong Un na fronteira das duas Coreias

EDUARDO 'SNIPER' ROBSON