Projeto sobre violência contra a mulher ganha prêmio do TJDFT

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A violência contra mulher é uma problemática que permeia todos os espaços da sociedade. Por isso, professoras da capital federal têm buscado discutir o assunto com seus alunos, conquistando reconhecimento público pelas iniciativas que capitaneiam.

Para ensinar aos alunos que ameaçar uma mulher, agredí-la fisicamente ou humilhá-la com xingamentos não são atitudes normais nem aceitáveis, a professora de língua espanhola Luana Moraes desenvolve um projeto que abrange diversas ferramentas sobre o tema. A iniciativa levou o 1º lugar no Prêmio Maria da Penha vai à Escola, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), que será entregue no dia 19 de agosto.

Luana dá aulas no Centro de Ensino Médio 12 (CEM 12), de Ceilândia. A cidade é o ponto do Distrito Federal onde as expressões de violência de gênero mais se destacam.

A região administrativa lidera as taxas de feminicídio e demais agressões contra mulheres. De janeiro a março, as autoridades policiais do Distrito Federal tomaram ciência de 3.752 crimes passíveis de aplicação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), dos quais 17,4% (651) ocorreram em Ceilândia.

Luana disse que a violência contra a mulher se transformou em pauta no CEM 12 depois de os professores participarem do projeto Vozes da Paz, do TJDFT, que tem por objetivo combater a violência no contexto escolar. A educadora disse que, desde quando começou a trabalhar na rede pública, em 2010, nota que alunos se tornam, com frequência, vítimas da violência doméstica. Por esse motivo, sua escolha tem ido sempre ao encontro da prevenção.

“A gente verifica que alguns alunos, sobretudo alunas, sofrem violência em casa ou, às vezes, [por parte] de um namorado, que é da mesma turma. A gente os vê mais próximos e percebe, pelo comportamento dele, que pode ser um comportamento abusivo. Aí, comecei a pensar em como poderia trabalhar [a questão]”.

O projeto vencedor do prêmio do tribunal recebeu o nome de A violência doméstica e familiar contra a mulher e leis que promovem a proteção da mulher. Luana e mais três colegas, que lecionam filosofia, língua portuguesa e sociologia, estimulam as turmas a tratar da temática por meio de vídeos, seminários, fanzines, cordéis e redações.

Além disso, as professoras também convidam os pais dos alunos para debater o assunto presencialmente, em encontros realizados na instituição. Atualmente, o projeto beneficia cerca de 720 alunos do 2º e 3º anos. Um dos materiais utilizados é a cartilha Vamos conversar?, da entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, a ONU Mulheres.

A importância da prevenção

Luana lamenta o fato de a violência chegar, em algumas ocasiões, mais rápido do que ações preventivas como as que vem implementando. “Teve um caso que me impactou muito e os professores, de uma aluna que era estuprada pelo pai. Era uma coisa de anos. Já era adolescente, já ia fazer 18 anos de idade”.

De acordo com a Secretaria de Segurança do DF, 272 estupros foram notificados às autoridades policiais, no primeiro semestre do ano. Desse total, 47 (17,3%) aconteceram em Ceilândia.

Segundo a professora, o fato de estar envolvida com o projeto tem feito com que alunos vítimas de violência se sintam mais confortáveis para pedir ajuda. “Alguns chegam, no final da aula, pra falar, é, professora, esse é um tema muito importante. Mas eu vejo que é pra falar algo mais. Eles chegam ainda meio tímidos, mas [diante de] relatos que chegam, a gente tenta encaminhar”, disse.

Reescrevendo a história

Em outra instituição de ensino, localizada a 35 quilômetros de distância do CEM 12, outro projeto tem dado resultados. A ação pelo fim da violência contra mulheres e meninas, do Centro de Ensino Fundamental Polivalente, sobe ao pódio com o projeto de Luciene Pereira, em 3º lugar. A atividade é desenvolvida nas aulas de língua portuguesa, com estudantes do 6º e 7º anos.

A professora Luciene Pereira busca o comprometimento dos alunos por meio da dança, do canto, da escrita e da análise crítica de contos de fadas. O intuito é questionar condutas machistas e que aprofundam a desigualdade de gênero, como o discurso de que mulheres só devem trabalhar em casa, com tarefas domésticas.

“O que mais me chama a atenção quando eu trabalho com contos de fadas é a representação. E não apenas os contos de fadas, a literatura, de forma geral, tem essa questão muito forte e me motiva muito a trabalhar com eles. Quando lemos os contos de fadas tradicionais, podemos observar que, via de regra, a mulher é representada em um contexto absolutamente patriarcal. Se a gente pegar as histórias contadas pelos irmãos Grimm ou pelo [Hans Christian] Andersen, é difícil encontrar alguma que apresente a personagem feminina que fuja aos padrões, até então aceitáveis, do que é ser uma princesa, tradicionalmente falando. A Disney já percebeu a importância de repensar o papel das mulheres nessas histórias”, ressalta.

“É importante para que a gente também possa narrar esses contos às crianças menores, tanto meninas como meninos, para que eles possam ver, desde a primeira infância, que as mulheres podem, sim, ser protagonistas das próprias narrativas, fugindo desse padrão idealizado tradicionalmente. O empoderamento começa a fazer parte do imaginário social”, disse.

Sensibilização e abertura

A educadora defende ainda que uma das finalidades da literatura é ampliar a empatia. Como Luana, Luciene também observa que o projeto tem proporcionado uma maior abertura às alunas.

Segundo a professora, à medida que as atividades vão sendo feitas, mais alunos compartilham experiências. “De início, era difícil para eles, principalmente para as meninas. Quando a gente perguntava a elas alguma questão mais específica, é como se tivessem que quebrar esse silêncio, esse obstáculo secular. O mesmo silêncio que fez com que tantas mulheres, em diversos lugares do mundo, nos mais diversos tempos históricos, se calassem diante das formas de violência que tiveram que enfrentar. A partir do momento em que comecei a introduzir os contos, a literatura, tudo ficou mais fácil, por causa da representatividade”, disse.

A estratégia tem sido mesclar contos de perspectiva mais contemporânea com outros mais antigos e que têm fundamentos machistas. “Ao mesmo tempo em que lemos contos de fadas tradicionais, lemos contos muito atuais, como os da Marina Colasanti, que são, de certa maneira, contos de fada, tais como a Moça Tecelã, em que há personagens femininas, que demonstram as dificuldades dessas mulheres hoje, essa violência simbólica, essa violência psicológica, que é mais sutil”, exemplifica.

A atividade demandou planejamento por parte da educadora, “para que houvesse uma maior aceitação das crianças”. No início, a abordagem se limitava à violência simbólica. Na sequência, vieram as discussões em torno da violência psicológica, da física e, por último, o feminicídio.

Um dos contos lidos foi O Coração Peludo do Mago, de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. O texto, segundo Luciene, abalou uma das alunas, que levou aos colegas seu diário, no qual registrava impressões sobre o relacionamento abusivo de uma tia. “Lá [no diário], ela representava, fazia diversas poesias sobre um relacionamento abusivo que a tia dela sofreu. Eles conseguiram se abrir pra mim, pra turma, nesse nível, de levar o que, pra eles, era de maior foro privado, que é o diário de anotações. Foi um projeto muito delicado. Começa bem sutilmente, com narrativas, a princípio, a uma primeira vista, muito infantis, muito sutis, mas que têm uma carga de questões sociais muito forte por trás. Acredito que essa abertura que tiveram pro diálogo e relatos de casos, como o dessa criança, aconteceu em virtude da delicadeza do tratamento que foi dada a essas crianças, no desenvolver do projeto”, afirma Luciene.

Depois de seis meses de projeto, a avaliação é de que os estudantes se tornam agentes que lutam pela efetividade da Lei Maria da Penha: “Tem impacto mesmo na vida da criança e a gente vê que [a criança participante] não só relata casos de violência doméstica como também se torna protagonista de enfrentamento no meio social, no espaço da escola, e se torna multiplicadora da ideia do projeto.”

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