“Mais de 50% dos instrutores teóricos e práticos foram desligados. Além disso, a resolução extinguiu funções como diretor-geral e diretor de ensino dentro das autoescolas. Isso gerou um impacto muito grande para as empresas”, diz

As mudanças nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), implementadas pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) no fim de 2025, continuam gerando impactos no setor de formação de condutores na Bahia. Enquanto o governo federal defende a simplificação do processo e a redução de custos para os candidatos, representantes das autoescolas afirmam que a medida provocou queda na procura pelos cursos, demissões em massa e dificuldades financeiras para os Centros de Formação de Condutores (CFCs).
Segundo o presidente do Sindicato das Autoescolas e Centros de Formação de Condutores da Bahia (Sindauto-BA), Wellington Oliveira, o anúncio das mudanças criou insegurança entre os futuros motoristas e provocou uma retração imediata na procura pelos serviços.
“Hoje se tem uma queda superior a 70% na procura pelo processo de formação de condutores. Muitas pessoas ficaram sem entender exatamente como funciona o novo modelo e acabaram adiando a decisão de tirar a habilitação”, relata.
De acordo com ele, os reflexos foram sentidos rapidamente nas empresas. O dirigente afirma que mais da metade dos postos de trabalho do setor foi encerrada após as mudanças.
“Mais de 50% dos instrutores teóricos e práticos foram desligados. Além disso, a resolução extinguiu funções como diretor-geral e diretor de ensino dentro das autoescolas. Isso gerou um impacto muito grande para as empresas”, diz.
O presidente do sindicato explica que as demissões ocorreram sem tempo para planejamento ou adaptação das empresas.
“As autoescolas precisaram arcar com custos de rescisão que não estavam previstos. Foi uma mudança repentina e sem prazo adequado para adequação”, acrescenta.
Outro ponto destacado pelo Sindauto-BA é a redução da carga obrigatória de aulas práticas. Segundo Wellington Oliveira, a exigência mínima passou de 20 para apenas duas horas-aula em determinadas modalidades do novo sistema.
“Você não forma um motorista em duas aulas. Muitos candidatos acabam precisando contratar aulas extras para se sentirem preparados para o exame”, afirma.
O dirigente também critica a substituição de parte da formação teórica por conteúdos digitais.
“O candidato acessa um aplicativo, passa rapidamente pelas telas e conclui o curso. Isso não significa que ele estudou. O reflexo aparece no aumento das reprovações nos exames teóricos”, observa.
Apesar da promessa de redução de custos, o setor afirma que muitos candidatos acabam gastando mais ao longo do processo devido à necessidade de reforço nas aulas e repetição de provas.
Atualmente, segundo o Sindauto-BA, cada hora-aula de motocicleta custa entre R$ 80 e R$ 100. Já as aulas de carro variam entre R$ 90 e R$ 120.
Quanto custa tirar a CNH hoje?
Os valores da habilitação variam de acordo com a autoescola, a categoria escolhida e a quantidade de aulas contratadas pelo candidato.
Segundo o Sindauto-BA, atualmente os preços médios praticados para aulas avulsas na Bahia são: Moto (categoria A)
Entre R$ 80 e R$ 100 por hora-aula.
Carro (categoria B)
Entre R$ 90 e R$ 120 por hora-aula.
A reportagem consultou autoescolas de Salvador e verificou que os estabelecimentos trabalham com diferentes formatos de contratação, incluindo pacotes completos, planos personalizados e aquisição de aulas extras.
Entre as empresas consultadas estão Auto Escola Ísis, Autoescola Reis, Auto Escola Brasil, Autoescola Fantástica e Top Autoescola.
De acordo com o setor, o valor final pago pelo candidato depende da quantidade de aulas realizadas, das taxas cobradas pelo Detran, dos exames obrigatórios e da necessidade de aulas de reforço ou repetição de provas.
Raio-X do setor
Queda na procura: mais de 70%
Postos de trabalho encerrados: mais de 50%
Valor médio da aula de moto: R$ 80 a R$ 100
Valor médio da aula de carro: R$ 90 a R$ 120
Sonho adiado
Para quem pretende tirar a primeira habilitação, as mudanças ainda geram dúvidas.
O estudante Lucas Andrade, de 20 anos, conta que sonha em trabalhar como entregador e vê a CNH como uma oportunidade de aumentar a renda.
“Quando ouvi falar que o processo ficaria mais barato, achei que seria mais fácil. Mas cada pessoa fala uma coisa diferente e ainda estou tentando entender como funciona. Tenho medo de gastar dinheiro e não conseguir passar”, relata.
A atendente Ana Beatriz Souza, de 25 anos, afirma que pretende tirar a carteira para ampliar as oportunidades profissionais.
“Hoje muitas vagas exigem habilitação. Eu estava juntando dinheiro para começar o processo e fiquei confusa com tantas mudanças. Quero fazer tudo da forma correta e me sentir segura para dirigir”, diz.
CNH como ferramenta de trabalho
Para o motorista de aplicativo Antônio Carlos Santos, de 42 anos, a formação adequada continua sendo essencial para a segurança no trânsito.
“Dirijo todos os dias em Salvador e vejo como o trânsito é complicado. Quanto mais preparado o motorista estiver, melhor para todo mundo. A habilitação não pode ser tratada apenas como um documento, porque ela envolve responsabilidade e vidas”, conclui.
Enquanto candidatos comemoram a possibilidade de redução dos custos, representantes das autoescolas defendem um debate mais amplo sobre a qualidade da formação dos novos condutores. O tema segue sendo discutido por entidades do setor e órgãos de trânsito em todo o país, enquanto milhares de baianos ainda tentam entender qual é, afinal, o novo caminho para conquistar a primeira CNH.
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