Fake news sobre urnas eletrônicas lideram desinformação eleitoral no Brasil, revela pesquisa

Estudo aponta queda na confiança pública no sistema de votação às vésperas das eleições de 2026

Fake news sobre urnas eletrônicas lideram desinformação eleitoral no Brasil, revela pesquisa -

As urnas eletrônicas seguem como o principal alvo da desinformação eleitoral no Brasil, segundo levantamento do Projeto Confia, iniciativa ligada ao Pacto pela Democracia. A pesquisa aponta que quase metade das fake news sobre eleições compartilhadas nas redes sociais concentra ataques ao sistema eletrônico de votação, alimentando dúvidas sobre a segurança e a confiabilidade do processo eleitoral brasileiro.

O avanço dessas narrativas ocorre às vésperas das eleições de 2026 e preocupa especialistas, que alertam para os impactos da desinformação na confiança pública nas instituições democráticas. As informações são da Agência Brasil.

Desinformação eleitoral mira funcionamento das urnas

As urnas eletrônicas completaram 30 anos de utilização no Brasil nesta última quarta-feira (13), mas seguem no centro de narrativas falsas que questionam sua confiabilidade. De acordo com pesquisa do Projeto Confia, iniciativa vinculada ao Pacto pela Democraciamais de 45% dos conteúdos falsos sobre eleições compartilhados recentemente atacam diretamente o funcionamento do equipamento.

O estudo analisou mais de 3 mil publicações relacionadas às eleições de 2022 e 2024. Desse total, 716 conteúdos foram submetidos a uma análise qualitativa aprofundada. Entre eles, 326 mensagens continham desinformação sobre urnas eletrônicas, consolidando o equipamento como o principal alvo de fake news no ambiente digital.

Outros temas também aparecem na lista, mas com menor incidência. Conteúdos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) representam 27,1%, enquanto teorias de fraude na apuração dos votos somam 21,8%. Já informações falsas sobre regras logística eleitoral correspondem a 15,4%.

Narrativas falsas exploram desconhecimento técnico

Entre os exemplos mais recorrentes defake news estão mensagens que alegam falhas inexistentes no funcionamento das urnas. Alguns afirmam que haveria atraso no botão “confirma” ou que o equipamento completaria automaticamente os números digitados pelo eleitor, o que não procede.

Segundo Helena Salvador, coordenadora do Projeto Confia, os conteúdos desinformativos exploram justamente o desconhecimento técnico da população sobre o sistema eleitoral eletrônico.

“As narrativas recorrem a falsas explicações técnicas para sugerir falhas e possibilidades de manipulação. Elementos concretos da experiência de votação, como as teclas da urna e as mensagens exibidas na tela, são utilizados para gerar estranhamento e alimentar dúvidas”, afirmou.

Ela destaca que o intervalo entre as eleições contribui para a disseminação desse tipo de conteúdo.

“As pessoas só têm acesso à urna a cada dois anos, no domingo de votação. Isso faz com que, se alguém espalha uma notícia falsa sobre um botão ou uma tecla, muita gente não tenha como checar rapidamente”, explicou.

Queda na confiança preocupa especialistas

O avanço das fake news eleitorais já impacta a percepção da população sobre o sistema de votação. Pesquisa da Quaest, divulgada em fevereiro, aponta que 53% dos brasileiros dizem confiar nas urnas eletrônicas. O número é inferior ao registrado em 2022, quando o levantamento do Datafolha, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), indicava confiança de 82%.

Os dados mostram variações entre faixas etárias. Entre pessoas com 60 anos ou mais53% afirmam confiar no sistema, índice associado à memória do período anterior à informatização do voto, quando o processo era feito em papel. Já entre jovens de 16 a 34 anos, a confiança chega a 57%.

Por outro lado, entre eleitores de 35 a 50 anosmetade afirma não confiar nas urnas eletrônicas, evidenciando um cenário de polarização e dúvidas persistentes.

“Ninguém critica as urnas apenas dizendo que elas são ruins, existem explicações bastante sofisticadas online tentando convencer as pessoas de que o sistema não funciona. Isso mostra a importância de tornar mais compreensível o caminho do voto, desde o momento em que o eleitor aperta a tecla até a totalização”, afirma Helena Salvador.

Justiça Eleitoral reforça segurança do sistema

Em meio ao avanço da desinformação, o TSE intensificou os testes de segurança das urnas eletrônicas. Especialistas em tecnologia da informação participaram, nesta semana, de uma nova etapa de validação das melhorias sugeridas anteriormente.

A primeira fase dos testes ocorreu em dezembro, quando não foram identificadas falhas relevantes no sistema. Ainda assim, os pesquisadores apresentaram sugestões para aprimorar mecanismos de proteção.

Agora, os investigadores avaliam se essas recomendações foram implementadas pela Justiça Eleitoral. Entre as principais preocupações está o reforço da integridade e do sigilo do voto, considerados pilares do processo democrático.

Desafio para 2026: combater fake news e reconstruir confiança

O objetivo do estudo do Projeto Confia é justamente compreender as origens da desconfiança eleitoral e desenvolver estratégias eficazes de enfrentamento às fake news. “A gente queria entender em que exatamente as pessoas deixaram de acreditar quando falam das eleições. O levantamento mostra que a maior parte da desinformação circula em torno das urnas eletrônicas, queremos chegar em 2026 preparados para construir contra narrativas fortes e responder rapidamente aos ataques contra o sistema eleitoral”, ressaltou Helena Salvador.

O primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para 4 de outubro, enquanto o segundo turno deve ocorrer em 25 de outubro. Até lá, o combate à desinformação será um dos principais desafios para instituições, pesquisadores e sociedade civil.

 

 

 

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