Programa de renegociação de dívidas do governo Lula registrou procura intensa nos primeiros dias e pode ganhar uma nova frente voltada a quem paga juros altos mesmo sem estar inadimplente

O Desenrola 2.0 ainda está nos primeiros dias de operação, mas já virou um dos programas econômicos mais procurados do governo federal em 2026. A página oficial do programa registrou cerca de 1,5 milhão de acessos em apenas cinco dias, com mais de 820 mil usuários ativos. Os números ajudam a medir o tamanho do endividamento das famílias brasileiras e também o interesse por qualquer oportunidade de escapar dos juros altos.
A atual fase do programa permite renegociar dívidas com descontos que podem chegar a 90%, especialmente em casos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. O público-alvo são pessoas com renda de até cinco salários mínimos e débitos em atraso entre 90 dias e dois anos.
Governo já estuda nova fase voltada aos informais
Enquanto a versão atual tenta limpar o nome de quem já entrou na inadimplência, a equipe econômica agora trabalha em uma nova frente: alcançar trabalhadores informais e pessoas que ainda conseguem manter as contas em dia, mas vivem sufocadas pelos altos juros.
Em entrevista ao jornal O Globo, a secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire, afirmou:
“A ideia é que a gente tenha um olhar para as pessoas informais para que elas também consigam pegar dívida em melhores condições, mais baratas.”
A estratégia envolve ampliar garantias públicas, como o Fundo Garantidor de Operações (FGO), para reduzir o risco das operações e, consequentemente, os juros cobrados pelos bancos.
O problema não é só a dívida, é o custo dela
Dentro do governo, o diagnóstico é que boa parte da renda das famílias continua sendo drenada pelos juros. Mesmo com desemprego menor e aumento da renda média, milhões de brasileiros seguem presos em parcelas, refinanciamentos e crédito rotativo. Na prática, o Desenrola tenta atacar justamente esse ponto: trocar dívidas caras por contratos mais baratos e previsíveis.
“A ideia é a pessoa trocar uma dívida que não é garantida por uma dívida garantida, que aí é mais barata”, explicou Freire.
A avaliação da Fazenda é que o peso das dívidas ajuda a explicar por que indicadores positivos da economia ainda não se refletem totalmente na percepção da população sobre melhora financeira.
Crédito caro virou parte da rotina brasileira
O avanço do crédito nos últimos anos veio acompanhado de juros altos, consumo financiado e aumento do custo de vida. Para parte da população, especialmente trabalhadores informais, conseguir empréstimo ainda significa aceitar taxas muito acima da média do mercado. A nova etapa do Desenrola tenta ocupar exatamente esse espaço.
Além das famílias, o pacote do governo também inclui medidas voltadas para micro e pequenas empresas, MEIs, estudantes do Fies e produtores rurais. A intenção é ampliar prazos, reduzir juros e permitir que empresas substituam dívidas mais caras por linhas com condições menos agressivas.
Entre alívio imediato e problema estrutural
O sucesso inicial do programa mostra que existe demanda reprimida por renegociação e crédito mais acessível. Mas também expõe um cenário em que milhões de brasileiros seguem financeiramente pressionados, mesmo trabalhando e gerando renda. No fundo, o crescimento dos acessos ao Desenrola revela mais do que interesse em descontos: revela o tamanho do aperto vivido por quem passa o mês inteiro tentando escapar dos juros.
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